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16 de Dezembro de 2018

Prospecto de aumento da violência nos EUA

Análise das consequências da política de armamento civil

Matheus Aded, Estudante de Direito
Publicado por Matheus Aded
ano passado

“Temos um padrão de tiroteios em massa neste país que não tem paralelo em qualquer outro lugar do mundo” – Barack Obama.

O Estados Unidos da América vive um período extremamente conturbado. O mundo inteiro sentiu-se novamente assombrado pelo espectro de Hitler e por sua ideologia preconceituosa, quando em Charlottesville um protesto de extrema-direita eclodiu com a finalidade de retirar uma estátua do general confederado Robert E. Lee. Outrossim, liberaram toda suas negatividades por meio de agressões verbais aos negros, imigrantes, judeus e gays – sem contar com o fato de acontecer um atropelamento na mesma ocasião. É nesse viés que vemos, segundo Marx, que a história está sempre fadada a se repetir, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Além de ficar evidente o conservadorismo existente em algumas localidades do país.

O terrorista americano Stephen Paddock, em Las Vegas, no dia dois de outubro de 2017 efetuou disparos de seu quarto de hotel em direção à um show deixando mais de 527 feridos e 59 mortes – ele tinha vinte armas no quarto. É notório observar o grande número de ataques terroristas que acontecem em solo americano, os quais influenciam de modo exacerbado a política internacional adotada pelos governantes, assim como têm enormes reflexos nas tradições do povo americano e na crescente aversão desses ao estrangeiro. Sem dúvidas tem-se um país dominado pelo medo após o ataque às torres gêmeas em 2001, situação a qual ceifou 2.996 vidas. Consideramos importante vislumbrar no que tange à esse assunto que a mídia americana, assim como outras ao redor do globo, acabam por considerar apenas como ato terrorista aquele que é cometido por grupos islâmicos, ausentando do termo outros que cometam atentados. Esse fato é uma problemática e uma questão a ser pensada. Ao meu ver, ambos os casos devem ser encaixados como terrorismo, na medida em que, por definição, a palavra significa uso sistemático do terror e é amplamente praticada por americanos contra americanos.

O número de atentados terroristas não islâmicos apresentam-se em número elevado e possuem um prospecto de aumento. Entenda terrorismo não islâmico como “mass-shooting”, que em português traduz-se para tiroteio em massa. Para a polícia federal americana, isto é, o FBI, o uso desse termo é apenas plausível quando resulta do atentado quatro ou mais mortes. De acordo com a organização civil “Gun Violence Archive”, o número de ocorrências de “mass shootings” em 2014 foi de 274, passando para 333 em 2015, 383 em 2016 e 273 em 2017 até o mês de outubro. Nesse sentido, fica evidente o progressivo aumento em sua quantidade.

Ademais, é notório um aumento no número de mortes não intencionais relacionadas ao porte de armas. Em 2014, 1607 mortes; em 2015, 1964 mortes; e em 2016, 2200 mortes. Em contrapartida, somam-se no Brasil, em um período de cinco anos, 1598 mortes por esse motivo. Na data 11/01/17, na California, uma menina de três anos de idade, com a arma legalizada da mãe, matou o seu irmão de um ano.

Trata-se de uma nação de 323,1 milhões de habitantes e com um contingente de 230 milhões de armas. Na ocasião de Las Vegas, o terrorista americano tinha vinte armas prontas para a prática do tiroteio em massa. Na ocasião da California, a menina, curiosa, pegou a arma da mãe e a usou. Evidencia-se um armamento civil da população, mas com moldes escassos no que se refere à uma rigorosidade de quem irá comprar e de um treinamento eficaz, fato que acaba por ocasionar tais execráveis eventos. Se falarmos de um armamento civil é indispensável uma imensa burocracia, com testes psicológicos e testes preparatórios que ensinem o manuseamento adequado. Em teoria, a realização dessa burocracia em torno das armas é possível, mas na prática, evidencia-se quase impossível levando em conta que são 320 milhões de armas e 323,1 milhões de pessoas.

A realidade é que o congresso americano dificilmente decidirá à favor do desarmamento civil. Afinal, vivemos em uma democracia corrompida pelo capitalismo, a qual na perspectiva de Maurício Abdalla, “reduz-se à efetiva participação da minoria”. É nessa perversa lógica, que o grande poder econômico da indústria bélica norte-americana, maior exportadora do setor e com incrível número de vendas no próprio território, dominou por completo a democracia local, o que declara a permanência do armamento civil.

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Fontes:

Mapa da violência de 2016: homícidios por arma de fogo no Brasil.

Gun violence Archive.

ABDALLA, Maurício. Capitalismo e Política II: Limites da democracia. Le Monde Diplomatique Brasil, 2017.

9 Comentários

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E é incrível como o Brasil, com o lindo estatuto do desarmamento, morrem mais de 60.000 pessoas por ano, e o número só vem aumentando, será que o problema realmente esta no porte de armas? Ou esta na garantia da marginalidade que a população não tem meios efetivos de exercer a legítima defesa própria ou ainda de terceiros e o fato do Estado não poder cumprir seu papel (afinal, como não temos meios de defesa efetivos, deveria ter policiais em cada quarteirão para garantir nossa segurança pública)? continuar lendo

David, minha postagem teve como princípio elucidar sobre o que está acontecendo nos EUA e sobre o prospecto de aumento da violência. Mas eu já tinha a noção que teriam comentários como esse. A comparabilidade entre EUA e Brasil é muito difícil, por terem conjunturas históricas completamente diferentes, assim como situações sociais diversas. No entanto, entendo sua indignação.

Em 2014 foram 44.861 homicídios (incluindo suicídios) devido à porte de arma. Entendo que é um número elevado, mas de acordo com estudos feitos 133.987 homicídios foram evitados desde 2002 com a legislação que proíbe o acesso à armamento para civis.

Já nos EUA, acontecem 37.079 (incluindo suicídios) homicídios por arma de fogo, mas a taxa de mortes acidentais e ataques em massa é muito maior. O número de homicídios não é tão menor assim. Aliás, deve-se levar em conta que cada cultura tem lógica própria, assim como afirma Laraira em seu livro "Cultura: um conceito antropológico". Com isso em mente, é árduo uma comparação aprofundada. Lembre-se que o EUA possui uma conjuntura social - educacional, saúde, segurança, legislativa - melhor que a nossa, isso reflete no número menor de homicídios. Não há estudo que indique uma correlação de armamento civil com redução da taxa de mortes por arma de fogo, muito pelo contrário: quanto mais armas, mais mortes. O que deve ser pensado é se 300 milhões de armas no Brasil daria certo, haja vista como a sociedade brasileira é. O número de mortes por acidente aumentaria muito, a tendência é o total ser maior que hoje.

David, obrigado por comentar e por ler. Abraço! continuar lendo

Os Estados unidos exageram na liberdade em se adquirir armas que passam longe da necessidade de defesa pessoal.
Ninguém precisa de um fuzil ou de uma metralhadora para defender sua casa, ou mesmo de um assalto nas ruas.
Não que isso obrigue a violência, mas facilita.
O que um oferece de mais, outro oferece de menos (e esse outro somos nós) continuar lendo

Claro que serve muito bem!

https://g1.globo.com/mundo/noticia/com-fuzil-ar-15-adolescente-mata-3-suspeitos-que-invadiram-sua-casa-nos-eua.ghtml continuar lendo

Que serve, sem dúvida, Silvio.
Mas com uma pistola faria o mesmo.
Um tiro de fuzil atravessa facilmente uma pessoa (ou algumas) e pode atingir inocentes. continuar lendo

E quanto às estatísticas positivas relacionadas ao porte de arma? Que tal fazer um artigo mostrando os dois lados?

Segue um link interessante:
http://www.gunfacts.info/gun-control-myths/concealed-carry/

Ademais, recomendo a leitura de Fréderic Bastiat para o tratamento da paixão pela regulamentação estatal.

Abraços. continuar lendo

Icaro, primeiramente, é rude desmerecer um artigo. Nem ao menos fez questão de dialogar com meu artigo. Porém, já conheço o estudo feito por esse site. Vou encaminhar para você a mesma resposta que encaminhei para o David. Bom, tenho prioridades outras com relação aos livros.

Icaro, minha postagem teve como princípio elucidar sobre o que está acontecendo nos EUA e sobre o prospecto de aumento da violência. Mas eu já tinha a noção que teriam comentários como esse. A comparabilidade entre EUA e Brasil é muito difícil, por terem conjunturas históricas completamente diferentes, assim como situações sociais diversas. No entanto, entendo sua indignação.

Em 2014 foram 44.861 homicídios (incluindo suicídios) devido à porte de arma no Brasil. Entendo que é um número elevado, mas de acordo com estudos feitos 133.987 homicídios foram evitados desde 2002 com a legislação que proíbe o acesso à armamento para civis.

Já nos EUA, acontecem 37.079 (incluindo suicídios) homicídios por arma de fogo, mas a taxa de mortes acidentais e ataques em massa é muito maior. O número de homicídios não é tão menor assim.

Deve-se levar em conta que cada cultura tem lógica própria, assim como afirma Laraira em seu livro "Cultura: um conceito antropológico". Com isso em mente, é árduo uma comparação aprofundada. Lembre-se que o EUA possui uma conjuntura social - educacional, saúde, segurança, legislativa - melhor que a nossa, isso reflete no número menor de homicídios. Não há estudo que indique uma correlação de armamento civil com redução da taxa de mortes por arma de fogo, muito pelo contrário: quanto mais armas, mais mortes. O que deve ser pensado é se 300 milhões de armas no Brasil daria certo, haja vista como a sociedade brasileira é. O número de mortes por acidente aumentaria muito, a tendência é o total de mortes ser maior que hoje.

Abraços. continuar lendo

Fui procurar a definição de "Tiroteio em Massa" e acabei encontrando em uma reportagem do G1 apenas: "a morte de três ou mais pessoas no mesmo local público".

Você acha que criminosos americanos (ou mesmo dos famosos cartéis mexicanos de tóxicos) não matam pessoas nas ruas? Matou 3 e está nessa estatística! E a "treta" é igual a daqui, por bufunfa, money, poder, power, escolha o que mais se adequar.

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/09/23/rocinha-voltaater-tiroteio-na-madrugada-deste-sabado.htm

Para essa estatística ser minimamente aceitável para o argumento que se tenta provar aqui deveria-se excluir os casos de legítima defesa, confrontos com a polícia, ou melhor ainda, deveria-se levar em conta apenas os tiroteios feitos com armas legais contra pessoas desarmadas em Guns Free Zone, alias, o que nem tiroteios são. continuar lendo

"Em 2017, quatro chacinas deixam 46 mortos na região metropolitana de Belém".

http://g1.globo.com/pa/para/jornal-liberal-2edicao/videos/v/em-2017-quatro-chacinas-deixam-46-mortos-na-regiao-metropolitana-de-belem/5924321/ continuar lendo